MARCOS CAiADO antologiapoética


Terça-feira, Setembro 19, 2006







noturnos




1


daqui a pouco as mãos se acabam.
e distante será ainda a porta.

daqui a pouco é uma dor exata.
vou me entreter assistindo ao horário político

ou conversando com as baratas
da área de serviço.

daqui a pouco o ar se acaba.
e eu sei: ninguém tem nada com isso!




2


nada além da meia-noite demorada. aquela que chegou de mala e cuia na minha vida,
sem pedir licença...
a meia-noite de sempre: que já é amiga de infância, namorada e confidente fiel.
presente eterno.
olá, meia-noite! eu digo. e ela retruca: olá por quê? se nem fui embora ...
não sai nem pra dar um espirro. meia-noite sem lua e cheia de birra:
- ora, marcos, eu vim pra morar!




3


alguém bate à porta: quem será?!
quem abrirá?...eu não posso!
juro que não posso. e inês jaz morta!
ouça: alguém bate. e nem a porta é verdade.

a sala está arrumada, o tapete varrido,
há 4 latas de cerveja na geladeira.
o quadro surrealista do amor já fora subtraído do diário de ana;
o salário todo depositado em nome do inesperado...
é uma e trinta da manhã e, há 6 dias, eu leio o mesmo livro do medo.

alguém bate à porta: quem será?!
onde está o espelho?! preciso saber das minhas faces. dos meus cabelos.
das minhas placas bacterianas...
todas as contas estão pagas. não há nenhuma torneira
com problema.
alguém bate à porta e há um poema preso
ao lustre da vida pequena.
mas poesia é coisa antipática,

quem viria buscar tal loucura!?




4


morri naquele meio de tarde. alheio ao carnaval que corria.
morri de beijo perdido.
e nunca mais voltei.
passo agora, horas a fio, tecendo grafias em queixumes de vento.
morri sem avisar.
enquanto vestia minha fantasia de rendas em frente ao mar...


a alguém fiquei devendo um lírio branco.
(não sei se pago).
amanhã, mais uma vez, em nome de iemanjá,
volto a ser este mesmo dia:
mãos frias de indiferença e sopro breve de andorinha triste.



morri, enquanto morria.





5


a cabeça pesa
a cabeça pé
a cabeça
acabe











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Sexta-feira, Setembro 08, 2006



a lua que tão alto voa
apaga a rua do ouvidor
apaga a praça da liberdade
e apaga, toda, o meu amor

a lua que apaga a lua
sequer lhe sabe o nome
vibra inteira e obscura
entre as facas do ventilador.








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